É de se questionar o uso dos automóveis como principal meio de transporte nos últimos tempos. Afinal, excesso de trânsito, acidentes e altos gastos com combustíveis são problemas que vemos todos os dias. Mas é bem verdade que não há qualquer medida efetiva de que as políticas públicas tenham o objetivo de mudar isso a curto prazo. Afinal, os incentivos ao mercado automobilístico ainda são maiores que os estímulos ao uso do transporte público e do transporte não motorizado.

Porém, uma conversa vem ganhando força. Estamos falando do conceito de mobilidade urbana sustentável, que não quer colocar um fim nos carros, mas repensar seu uso, misturando sistemas como metrôs, trens e ônibus, integrados com calçadas niveladas, ciclovias e até mesmo formatos inovadores como esteiras rolantes, elevadores de grande capacidade e teleféricos. A ideia é reduzir o tempo gasto em transporte sem prejudicar o meio ambiente.

“Não se trata de extinguir o carro, mas sim encontrar formas de aproveitar melhor seu espaço.”

Para exemplificar o que já está sendo feito no mundo da mobilidade urbana sustentável, Alelo Auto separou algumas frentes bem-sucedidas. Confira a seguir:

Novos usos para os carros

Estima-se que 64% das viagens de carro realizadas em São Paulo diariamente transportem apenas um passageiro, de acordo com dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Para se ter uma ideia, segundo o Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), os carros transportam um volume de pessoas parecido com os ônibus (cerca de 30% contra 40%), porém os veículos privados ocupam 88% das vias, enquanto os coletivos ficam apenas com 3% do espaço.

Nesse cenário, alternativas como carros compartilhados ganham destaque. “Não se trata de extinguir o carro, mas sim encontrar formas de aproveitar melhor seu espaço”, diz Ricardo Bacellar, diretor da divisão automotiva da consultoria KPMG no Brasil. Para Bacellar, as caronas compartilhadas também devem ganhar mais evidência. O próprio Google já está de olho nesse mercado e já usa o Waze Carpool para colocá-lo em prática.

Enquanto isso, empresas como a Alelo já estão estruturando seus programas. Por meio de um aplicativo que reconhece rotas comuns, funcionários da companhia são estimulados a trocar caronas nos trajetos de ida e volta do trabalho.

Novas motorizações

Motores alternativos também fazem parte do conceito de mobilidade urbana sustentável. Ainda segundo o Iema, os veículos são responsáveis por 72,6% das emissões de gases de efeito estufa do setor de transportes, apesar de levarem apenas cerca de 30% dos passageiros. Por isso, com emissões perto de zero, os carros híbridos e elétricos passam a ser os queridinhos de um meio ambiente mais equilibrado.

Ricardo Guggisberg, presidente da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), afirma que até o fim do ano o país deve aprovar uma legislação específica para a venda de carros elétricos no país. “Ainda temos a questão do preço que inviabiliza a escala de vendas, mas a isenção do IPI (Imposto sobre Produtos Importados) deixaria os modelos acessíveis”.

Para se ter uma ideia, o mais baratinho dos elétricos no Brasil é o Renault Twizy, vendido apenas para empresas, por R$ 70 mil. Para o consumidor em geral, os modelos partem de R$ 150 mil. Enquanto há cerca de 4 mil veículos híbridos e elétrico no Brasil, na Europa a frota já chega a um quarto do total.

“quem chegasse aos 30 anos e ainda andasse de carro para ir ao trabalho deveria considerar-se um fracassado”.

Integração com ciclovias

Os sistemas de bicicletas públicas, como os implantados em cidades Copenhague, Paris, Barcelona, Bogotá e Boston são outra aposta para uma mobilidade mais sustentável. Com ciclovias adequadas, essas grandes cidades oferecem um meio de transporte limpo e ágil para os moradores — inclusive restringindo o acesso de carros em algumas áreas. Em São Paulo, a iniciativa ainda provoca resistência, mesmo assim a rede de ciclovias ultrapassou os 300 quilômetros. Em comparação, Amsterdã tem 800 000 habitantes e 500 quilômetros de ciclovias.

Transporte público mais abrangente

Querer que os cidadãos usem o transporte público, que é comprovadamente o meio mais eficiente de transporte, falando de quantidade, requer melhorias. Exemplos como de Brisbane, na Áustria, ganham destaque. Lá, há estacionamentos gratuitos próximos às estações de metrô, trem e ônibus. Desse modo, é possível dirigir até certo ponto e então terminar o seu trajeto por transporte público, o que é uma forma menos poluente e mais rápida de deslocamento.

Além de trabalhar a infraestrutura, seja rodoviária ou mesmo de calçadas e ciclovias — o que demanda tempo e investimentos altos — para que a mobilidade urbana sustentável seja uma realidade, o assunto tem um desafio cultural. É consenso entre especialistas que no Brasil há uma questão de status na posse de carros.

Lugares como o Reino Unido, já tiveram esse conceito alterado. Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra britânica dizia que “quem chegasse aos 30 anos e ainda andasse de carro para ir ao trabalho deveria considerar-se um fracassado”. Ao que tudo indica, ainda temos um longo caminho para alcançar a mobilidade urbana sustentável. Se você conhece algum projeto bem-sucedido compartilhe com a gente!