Retorno dos colaboradores para atividades presenciais nas empresas

Depois de meses de isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus, as empresas começam a preparar a volta dos funcionários em home office para a rotina do ambiente físico de trabalho. Mas como garantir que isso seja feito de forma segura?

Para Roberto Aylmer, especialista em liderança e gestão estratégica de pessoas e diretor da consultoria Aylmer Desenvolvimento Humano, que está encabeçando planos de retomada de empresas de grande porte no país e já atendeu clientes como Vale, Petrobras, Sanofi, Embraer e Grupo Boticário, o momento requer calma e planejamento. “Muitas pessoas estão assustadas com as mudanças e temendo um retorno. Isso não deve ser feito de forma abrupta mesmo depois que o Governo liberar todas as atividades”, diz.

Segundo o especialista, algumas questões devem ser levadas em conta antes da reintegração da equipe ao escritório. “É importante saber se a presença física vai aumentar a produtividade e o engajamento ou vai deixar as pessoas mais tensas”, diz Aylmer. “Isso precisa ser mensurado por meio de pesquisas e relatórios de desempenho. Os líderes precisam se debruçar nisso e apresentar argumentos que façam sentido para expor os funcionários ao risco”, diz.

Ele diz que muitas empresas estão optando por prorrogar o período de home office, ou mesmo reduzir as idas semanais ao local de trabalho, até o final deste ano. “Acredito que nada deve ser feito de um dia para o outro. As escolas ainda não têm previsão de abertura e muitos pais não têm com quem deixar as crianças, por exemplo. Por isso, a palavra de ordem é flexibilidade”, afirma.

Ele aconselha que as empresas, independentemente do porte, avaliem a possibilidade de trabalho remoto algumas vezes na semana, por exemplo. “Propor horários alternativos para fugir do pico no transporte público também é uma opção”, diz o executivo.

De olho no emocional das equipes

Aylmer afirma que a decisão também deve se basear na situação emocional das equipes. Realizar pesquisas para entender os sentimentos dos funcionários pode ser importante. “Além da pandemia, temos de nos preocupar com a saúde mental das pessoas. Há muitos relatos de depressão, transtorno compulsivo por limpeza e até Burnout por conta desse momento”, afirma.

Para ele, trazer a equipe de volta quando comprovada a real necessidade, requer uma preparação que envolve questões de segurança do trabalho para atender às regras atuais de cada região do País, monitoramento da saúde, gestão constante dos horários de mão de obra, além da disponibilidade de serviços de atendimento médico e processos de acompanhamento de funcionários.

“Todas as normas sanitárias devem ser cumpridas. Máscaras, álcool gel, luvas, óculos de proteção viram equipamentos obrigatórios. Isso sem contar a necessidade constante de limpeza profunda dos ambientes. Não estamos voltando de férias, estamos no meio de uma batalha contra um vírus muito letal. Colocar a equipe em risco não pode ser uma opção”, diz o executivo.

Ele recomenda que as empresas criem lembretes sonoros ou por mensagens para a troca de máscaras e lavagem das mãos, por exemplo. Além disso, a disposição do espaço também precisa ser revista. Já há empresas reformatando escritórios, que tinham o layout amplo e aberto, para espaços com baias e distanciamento social. Até mesmo a configuração de ar condicionado está sendo checada, para que os equipamentos não sejam mais centrais e haja o risco de contaminação dos andares.

Outra ação para a volta das atividades coletivas é o fechamento de cafeterias e lanchonetes, por exemplo. Além disso, muitas empresas cogitam horário reduzido de expediente para que os funcionários possam fazer suas refeições em casa. “A recomendação é levar comida de casa para diminuir o contato e não fazer saídas para alimentação”, diz Aylmer.

Também há dúvidas sobre quem deve voltar primeiro para os escritórios, mas o consenso é que pessoas em grupos de risco devem ser poupadas. Quem tem condições de se transportar em veículo próprio, não apresenta problemas de saúde e se declara seguro para voltar pode estar na primeira leva de retorno.

Contudo, o monitoramento de saúde dos funcionários, por meio de aferição de temperatura e afastamento imediato em caso de sintomas, não pode ser deixado de lado.  Até mesmo as famílias dos colaboradores devem ser colocadas em observação quando possível.

O papel fundamental do RH na volta aos escritórios

Para Aylmer, o papel do RH neste momento é cuidar das pessoas na essência da palavra. “As empresas de pequeno e médio porte não costumam ter RH estruturado, mas esses profissionais têm a missão de informar os gestores sobre os cuidados. Recomendo que separem pesquisas, estudos, reportagens e mostrem a importância do cuidado neste momento”, diz o executivo.

Uma das opções para realizar a transição de volta ao espaço dos escritórios é contratar consultorias especializadas para ajudar em cada uma das fases. “Sabemos que o custo pode ficar pesado, por isso é hora de se reunir com outras empresas de pequeno porte e contratar ajuda com o custo diluído, por exemplo. É um momento que não tem concorrente, é hora de zelar pela vida”, destaca o executivo.

Outra opção para reduzir os custos é buscar ajuda em organizações como Endeavor e Sebrae, que costumam auxiliar empresas de menor porte. Além disso, o Sesi possui um serviço de saúde mental de baixo custo, que pode ser útil neste momento para o monitoramento dos colaboradores.

“Agora é fundamental que o RH ajude a defender as pessoas e cuide das condições de trabalho do time como nunca. As metas ainda são importantes, mas as vidas são mais”, avalia Aylmer.